A Pousada dos Girassóis, perto de Cunha, foi um ótimo final para o nosso cardápio de hospedagens. Os três últimos pousos, aliás, foram muito curiosos: num dia dormimos em chalés numa pousada muito charmosa, em meio a uma mata de araucárias no alto da Mantiqueira; no dia seguinte em um albergue para romeiros, no Vale do Paraíba; e no último em mais uma agradável pousada, agora no alto da Serra da Bocaina. Foi definitivamente uma viagem com altos e baixos.

Saímos uma hora mais tarde, conforme combinado. No campeonato de pontualidade, a equipe “Cabeça de Boi”, do Tatuí, do Fernando, da Claudinha e do Alessandro, faturou o primeiro lugar, perdendo apenas um ponto durante toda a viagem. Foi, a propósito, um campeonato que gerou alguma controvérsia, alegações de injustiça, etc., mas cumpriu o efeito pretendido: os atrasos foram mínimos, o que é tarefa quase impossível em uma viagem com mais de três pessoas. Uma idéia para ser repetida.

Pedal na estrada. Com cinco quilômetros de asfalto, estávamos em Cunha, última cidade por onde passaríamos. Ali, a indefinição: continuar no asfalto rumo a Paraty, ou pegar uma estradinha de terra que passava por algumas cachoeiras, cuja quilometragem não era um consenso entre os locais a quem pedimos informação. Como o pessoal já estava ficando viciado em roubadas, optou-se pela estradinha. Muita descida, muita subida, e muito mais agradável que qualquer asfalto, embora, como descobrimos depois, fosse o trajeto mais longo. Não importava: um “toldo” de araucárias é sempre capaz de fazer uma árdua subida parecer terreno plano.

No caminho, mais uma cachoeira, que só alguns resolveram aproveitar. Felizardos: o curto acesso ao poço foi o trecho mais íngreme de toda a viagem. A ida, uma descida de queimar os freios, e a volta, uma parede de queimar as pernas, mostrando que a viagem realmente incrementou o preparo. Sem falar, claro, no bem que faz um banho gelado no meio de um dia ensolarado de pedal.

Duas dúzias de quilômetros depois, saímos da estradinha de terra para o asfalto, agora no caminho oficial de novo. Com pouco, paramos em uma lanchonete para ajuntar o grupo e acabar com outro estoque de coxinhas, pastéis e sanduíches. Mas à frente, nosso segundo cruzamento de divisa da viagem, dessa vez saindo de São Paulo e entrando na pontinha mais meridional do Rio de Janeiro.

A partir daí, não paramos mais de descer. Quando cruza o Parque Nacional da Bocaina, o asfalto dá lugar a uma estradinha de terra com muito cascalho solto, e a atenção precisa ser redobrada. O downhill é convidativo, ganha-se velocidade facilmente, mas ninguém quer tomar um tombo a poucos quilômetros da chegada. Fim do parque, asfalto novamente, mais uma parada para ajuntar o grupo em uma lojinha de cerâmica no meio da descida, Paraty já à vista.

Já próximo da entrada da cidade, onde está um importante marco da Estrada Real - o segundo a ser estabelecido, de acordo com o que se lê ali -, outra parada. O Lucas aproveitou para dar uma amostrinha dos malabarismos que podem ser feitos com uma bicicleta e subiu as escadas de uma igreja dando pulinhos de degrau em degrau, usando técnicas de uma modalidade ciclística chamada bike trial. A recepção, porém, foi pouco amistosa: alguém que via a cena nos xingou, dizendo que aquilo era desrespeito. Vá entender.

Paramos no portal da cidade e entramos na cidade em fila indiana, evidentemente chamando a atenção e arrancando perguntas. Alguns meninos achavam, como sempe ao longo da viagem, que era uma corrida. O Reinaldo, com um guidom na mão e uma câmara na cabeça, fez várias filmagens.



Não houve uma solenidade oficial, como na largada, em Ouro Preto. Antes da viagem tentamos entrar em contato com o poder público em Paraty, mas a secretária municipal de turismo (Leila Assunção) não deu retorno para nossos e-mails e telefonemas - um funcionário apenas providenciou um local para tomarmos banho, ao custo de 7 reais por cabeça, sem toalha, o que evidentemente dispensamos. Chegamos juntos no porto de Paraty e fizemos uma espécie de foto oficial da chegada.

Daí, dispersamo-nos. Alguns queriam tomar um banho de mar e procuraram uma praia, outros preferiram tomar cerveja, e ainda alguns queriam coroar a viagem com um régio jantar. Tivemos uma agradável surpresa: o Augusto, que mora em São Sebastião (SP) mas pedala conosco de vez em quando em BH com sua bicicleta reclinada, apareceu em Paraty para prestigiar nossa chegada, acompanhado da Paula, sua esposa. Abaixo, o pessoal que não resistiu a pôr os pés na areia.

Depois disso, tomamos banho em uma pousada (agora com uma negociação bem melhor) e entramos no ônibus que nos esperava para voltar a BH. O Reinaldo, a Karina, o Fernando e o Alessandro voltaram no carro do primeiro, que foi usado como apoio. O Tatuí, dono do outro carro, resolveu ficar com a Paula e o Librelon mais uns dois dias em Paraty. O Gustavo foi de ônibus comercial diretamente para o Rio, onde tinha trabalho na segunda.

Alguns acharam, com razão, nossa chegada meio mixuruca, pouco apoteótica. Em parte, isso se deveu à falta de receptividade que tivemos do Executivo Municipal de Paraty. E nosso planejamento foi mais orientado para a logística das hospedagens no meio do caminho que para alguma solenidade final. Por fim, cada um preferiu terminar sua viagem a seu modo, seja com cerveja, com praia, ou com jantar, o que acabou separando o grupo em pequenas turmas.

E o final de novela mais aguardado de todos os tempos: sim, o valente CTT chegou em Paraty conosco. Viajou muito a pé - ao menos uns duzentos quilômetros - e um pouco de carro, e sempre com uma cara de que o que importava era estar ali conosco, qualquer que fosse o meio de transporte. Cachorros normalmente não demonstram muita afeição por ciclistas. Quando passamos na porta de uma casa que tem cães soltos, é comum eles saírem correndo atrás da bicicleta, latindo ameaçadoramente. Teve ciclista que já até tomou mordida na canela. O CTT parece ter simpatizado conosco desde o primeiro momento em que nos viu, quando desembarcamos da balsa em Capela do Saco. Nunca fica mendigando carinho, mas se alguém lhe afaga espontaneamente, sua fisionomia é de plena satisfação. Preferiu sofrer dezenas de quilômetros no segundo dia a desistir, no meio do caminho, de nos acompanhar. Como vários de nós, sentiu dor muscular e teve uma baixa de resistência, quase adoecendo, mas se recuperou e foi até o fim.
No Fórum que temos na internet - o espaço de convivência ciclística virtual onde a maioria de nós se conheceu - especulou-se por que o CTT teria começado a seguir a gente. Uma hipótese é a de que ele é cachorro, mas sabe contar: “se seguir essa galera, vou ganhar muita comida”. Outra, que ele queria tentar a sorte na cidade grande e aproveitou a carona; acabou dando mais sorte ainda, porque antes de chegar já tinha virado estrela da internet. E uma terceira defendia que, como bom mineiro, ele queria conhecer o mar. O fato é que ele chegou a Paraty e lá foi resolvida a questão da sua adoção. O Tatuí e a Paula vão ficar com ele, colocando-o na companhia dos outros quatro cachorros que já têm. O CTT vai morar em Nova Lima, numa casa, e certamente vai nos acompanhar em várias trilhas daqui pra frente.
Teve gente reclamando do nome que demos para ele. De fato, um cachorro se chamar CTT é meio esquisito. O máximo que podemos fazer é escrever Cetetê, que não é lá tão diferente assim de Totó. Mas não dá para mudar, jogando por terra a espontaneidade com que o nome surgiu. BTT é mais que uma sigla, é uma expressão muito querida por nós, ciclistas. Embora seja quase um sinônimo de MTB (mountain bike), muita gente a pronuncia de boca cheia, quase explicitando que ela quer dizer mais que “montanha”: absolutamente Todo Terreno. Quem mais a gente sabe que usa o mesmo expediente, portugueses (BTT) e franceses (VTT, vélo tout-terrain), deve experimentar sensação parecida. Quando vimos que o cachorro ia mesmo nos fazer companhia, e começou a sugestão de nomes, estávamos passando por terrenos muito acidentados. O trocadilho com TT foi uma piada interna com força suficiente para batizar nosso novo amigo.
Para muitos, essa viagem foi, fisicamente, uma superação. Vários não se supunham capazes de fazer o que fizeram, principalmente porque o percurso foi mais duro e mais extenso que se imaginava. �? assombroso pegar um mapa e perceber que se cobriu uma distância enorme em uma semana usando apenas a força das próprias pernas. Mais espantoso ainda é chegar no alto de um morro e olhar para trás, vendo uma sucessão de serras, e imaginar que ainda ontem você estava naquela última lá atrás, agora apenas uma silhueta no horizonte. A energia que proporcionou isso saiu da quebra de alimentos dentro do nosso corpo, e é tão energia quanto aquela que vem das explosões dentro dos motores: pode ser expressa com as mesmas unidades de medida, e é igualmente transformada em energia mecânica. Não é pouca coisa: é suficiente para impulsionar uma massa de quase cem quilos, ciclista mais bicicleta, por centenas de quilômetros, subindo e descendo morro. Essa constatação deveria fazer com que não fosse surpreendente descobrir que nossos limites físicos e psicológicos estão bem mais distantes que imaginávamos. Mas passamos a vida tão amofinados dentro de uma zona de segurança cotidiana que, quando isso acontece, parece inacreditável.

Nós nos esforçamos para que essa viagem ganhasse bastante visibilidade. Procuramos mídia, escrevemos para muita gente, fizemos esse site e esse blog - que deram muito trabalho e, modéstia às favas, ficaram um primor -, adoramos aparecer na TV e n’O Tempo, etc. Claro que entra aí um pouco de vaidade, de querer mostrar que nosso projeto foi bem organizado e bem executado, que somos um grupo que tem bom gosto, que fotografa bem, que escreve bem, e que além de tudo pedala feito gente grande. Somos cientes e orgulhosos disso tudo. Mas quem a gente quer mesmo pôr sob o holofote é a bicicleta. Tem pouca coisa no mundo da qual se pode dizer com segurança que quanto mais, melhor. Produção, consumo, desenvolvimento, população, tecnologia, essas palavras ficam pouco à vontade nessa frase. Mas temos convicção de que, quanto mais gente pedalando, melhor. Não há nenhum invento que faça tanto com tão pouco, em termos de produção de deslocamento - uma das necessidades humanas mais elementares. Pode-se dizer, com razão, que andar a pé é uma forma de se deslocar tão saudável e não-poluente quanto a bicicleta. Mas, sem falar em como a paisagem muda rapidamente quando se está numa bicicleta, quem pedala experimenta uma apuradíssima sensibilidade a qualquer mudança na regularidade ou no piso do terreno, e tem o tempo todo que produzir micro-ajustes no seu corpo - na força que está fazendo, na respiração, na posição do corpo sobre a bike - para se adaptar a essas mudanças. Pedalar tem muito mais nuances que caminhar. Subir um morro inclinado sob um sol castigante muitas vezes nos faz perguntar se estar ali, sofrendo espontaneamente, é alguma espécie de tara. Mas olhar para trás ao fim da subida e ver que você acaba de pacientemente derrotar mais uma é algo que propociona uma saudável sensação de poder. Se depois disso ainda vem uma descida ensombreada no meio de uma mata, a percepção do suor da camisa se esfriando rapidamente e refrescando o corpo faz-nos abençoar a subida recente.

Não é à toa que crianças adoram bicicletas. Quando subimos em uma, voltamos a ser meninos. Afinal, um brinquedo cuja estabilidade vem da velocidade - tente ficar em cima de uma bicicleta parada - acaba abrindo um espaço para um pouco de inconseqüência, de aceitação do risco, de curiosidade de experimentar. É divertido perceber-se desenvolvendo habilidades de condução. É gratificante ver-se negociando com o terreno, evitando cascalhos e terra fofa, escolhendo a melhor linha a seguir dentro das inúmeras possibilidades na largura de uma estrada de terra, e fazendo isso melhor a cada dia de pedal.
Nossa intenção é que cada vez mais gente descubra esse prazer e pedale. Nas ruas, nas ciclovias, nas praças, nas estradinhas, nas rodovias e nas trilhas. Indo à padaria ou viajando. Não há comparação possível entre cobrir um percurso de bicicleta e fazê-lo de automóvel. De carro, não acontece nada além do deslocamento. Os trajetos são sempre iguais. De bicicleta, o mesmo caminho nunca é o mesmo.

Nada disso é, claro, novidade para nós, mas é absolutamente desconhecido para muita gente. Não pretendemos dizer que dá para qualquer um sair por aí fazendo o que fizemos - nem nós mesmos estávamos perfeitamente aptos a isso, tanto que alguns tiveram dias de viagem bem penosos. Mas dá para dizer com tranqüilidade que qualquer pessoa pode começar a percorrer trajetos curtos de bicicleta, e dali pular para programas gradativamente mais ousados. A evolução é muito rápida e é extremamente prazerosa.
E quem fez essa cicloviagem sabe, agora ainda mais, que esse é um entusiasmo que não tem volta.
